Tu e Eu & Eu e Tu

Um blog de algodão doce

Será fácil amar? Ou será mais fácil sonhar? Agosto 31, 2006

Filed under: Blogroll — hanokas @ 6:23 pm
Quando se ama alguém tem-se sempre tempo para essa pessoa. E se ela não vem ter connosco, nós esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes o alcance do olhar. O amor na espera ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível.

É mais fácil esperar do que desistir.
É mais fácil desejar do que esquecer.
É mais fácil sonhar do que perder.
E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.

(“Diário da tua ausência” – Margarida Rebelo Pinto)

 

Egoísta

Filed under: Blogroll — hanokas @ 5:20 am
Se alguém me chama “egoísta”, o que está a dizer-me?
Está a dizer-me “não penses em ti, pensa em mim.”
Quem é o egoísta?

Desde há três ou quatro mil anos que o Talmude diz:
Se eu não pensar em mim, quem o fará?
E se eu só pensar em mim, quem serei eu?
E se não for agora, quando?

Existem três categorias de pessoas:
Uma, a que, quando tem frio oferece toda a sua roupa de agasalho.
Outra, a que, quando sente frio, veste a sua roupa de agasalho.
E uma terceira que, quando sente frio, acende uma fogueira para se aquecer a si mesma e a todos os que queiram desfrutar do calor.
A primeira pessoa é suicida: irá morrer de frio.
A segunda é miserável: irá morrer sozinha.
A terceira é um ser humano normal, adulto e egoísta (acende a fogueira porque ele tem frio).
Eu quero ser aquele que acende milhares de fogueiras e, mais ainda, quero ser o que ensina milhares de seres humanos a acender fogueiras.
Definitivamente, não sou humilde.

(Jorge Bucay)

 

"Os ombros suportam o mundo" Agosto 27, 2006

Filed under: Blogroll — hanokas @ 11:38 pm

Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Moral da História

Filed under: Blogroll — hanokas @ 11:14 pm

Havia um sábio oriental que contava inúmeras histórias, com grandes lições de vida aos seus pupilos. Eram sempre contadas com tal emoção e entrega que os pupilos ficavam maravilhados com o seu mestre, embora nunca chegassem a perceber muito bem o seu significado e o objectivo de tal conto.
Certo dia um dos pupilos foi ter com o seu mestre e disse-lhe:
– Meu mestre, os seus contos são maravilhosos, mas tenho que lhe pedir uma coisa. Quando terminar de contar explique o seu significado, pois de nós ninguém percebe onde é que o mestre quer chegar…
Então o mestre disse-lhe:
– As minhas desculpas, não me tinha apercebido de tal… Vou tentar fazer isso. Por me teres alertado para tal falha no meu ensino ofereço-te este belo pêssego que eu próprio ía comer.
O aluno agradecido e feliz por ter obtido o que queria, ía aceitar o pêssego quando o mestre lhe disse:
– Deixa-me descascá-lo para que te saiba melhor…
E após o mestre o ter descascado e o ía a entregar volta a dizer-lhe:
– Será melhor parti-lo em bocadinhos.
E assim fez… O pupilo já estava a ficar impaciente e ía a pegar os pedaços de pêssego quando o mestre diz:
– Para que tenhas mais prazer a comer este suculento pêssego eu vou mastigar para ti o fruto, para que não o tenhas de fazer tu!
Neste momento o pupilo já não estava a gostar nada da história e gritou:
– Não mestre, não me tire o prazer de ser eu a fazer isso. O pêssego vai perder todo o seu sabor…
E aí apercebeu-se daquilo que o mestre lhe queria ensinar.

(conto adaptado)

Não podemos esperar que a papinha nos apareça feita no nosso prato. Há que semear, fomentar, aprender, arriscar, experimentar, para podermos colher os frutos. Não podemos ficar à espera que nos saia o totoloto sem sequer jogarmos uma vez.
Esforcem-se! Há-de aparecer algo novo que queiram fazer e que consigam! Pois é isso que é importante. Já assim cantavam num anúncio de há 15 ou 20 anos, de uma bebida americana, com cafeína: “Tenta conseguir o que julgas melhor, anda p’rá frente e lá chegarás!”

LUTEM, pois a vida é bela, temos que nos lembrar que temos de lutar por ela!

Boas férias ou simplesmente bom fim-de-semana.
 

Ser poeta Agosto 26, 2006

Filed under: Blogroll — hanokas @ 8:14 am
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Florbela Espanca)

 

A rubrica do pensar Agosto 25, 2006

Filed under: Blogroll — hanokas @ 9:34 pm

O sonho é a rubrica do pensar
Do sentir, do viver, do existir
Olhai as crianças no seu brincar
Tudo sonhando podem assumir

Serem reis, correr, saltar, voar
Tudo podem ser e conseguir
O sonho pode tudo construir
Para sonhar, basta se só acreditar

Por isso eu creio e espero e amo
Sonhar – que a vida é ela toda um sonho
Nele toda a minha fé e esperança ponho
Oh sonho, oh ilusão, oh Deus, eu clamo
Ajuda-me a sonhar, manter o voo
Que me eleve – ave leve num mundo novo.

(S. G. Melo – Vogelbach)

 

Tempo dividido

Filed under: Blogroll — hanokas @ 6:50 pm
Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré-cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)